“Obrigado Pizza, faça seu pedido!”

“Obrigado Pizza, boa noite? Sim, entregamos na Câmara Municipal!”



O Peso de ser “Obrigado”: Entre a Pizza, o Pão, o circo e a Falta de Ética



A palavra “obrigado”, que usamos mecanicamente dezenas de vezes ao dia, carrega uma raiz profunda e contratual. Ela vem do latim *obligatus*, que significa “atado”, “ligado” ou “preso por um laço”.

Historicamente, ao dizer “obrigado”, você assume um vínculo: “Sinto-me obrigado a retribuir o que você fez por mim”. É o reconhecimento de uma dívida moral.

No entanto, o que vemos hoje é a completa deturpação desse laço em prol da conveniência e da impunidade.


Nesta semana, presenciei dois casos que ilustram como a “obrigação” virou uma moeda de troca barata.


O primeiro cenário foi em uma Câmara Municipal, de uma cidadezinha do Velho Oeste, em território da tribo Caiuá. Diante de provas claras de corrupção apresentadas por um cidadão, os vereadores decidiram, por unanimidade, absolver o colega. O réu, ao final, soltou um sonoro “obrigado”.

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Assista ao meu discurso (a partir de 09:50 e continue assistindo o processo de cassação do vereador William Araújo

Naquele contexto, a palavra recuperou seu sentido mais cru de “contrato”: ele não estava apenas sendo educado; ele estava selando um pacto de reciprocidade. Aquele “obrigado” foi a assinatura invisível de que, na próxima vez que os outros precisarem de um voto para esconder seus próprios erros, ele estará “obrigado” a retribuir. Ali, a justiça virou pizza.

Adendo aos irmãos lusófonos: no Brasil, a expressão “terminar em pizza”, remete à impunidade e à corrupção entre políticos, os quais ignoram processos de cassação de mandatos e fazem uma grande festa fraternal nos plenários, comemorando o “companheirismo”.



O segundo caso ocorreu no setor privado, em um atendimento ao consumidor. Após ser lesado por uma falha da empresa, fui confrontado por uma atendente que discutiu comigo, ignorando o direito básico. Ao ligar novamente, ouvi de outra funcionária que ela “tentaria me ajudar” e um pedido de desculpas.

Mas vamos aos fatos: em um contrato comercial, não existe “ajuda”. Existem cláusulas, prazos, obrigações e multas. Pedir desculpas sem tomar providências é usar a cortesia como escudo para a incompetência. O “desculpe” e o “obrigado” no SAC viraram um **pão sovado** de palavras vazias para não se falar em reparação.


No fim das contas, a análise desses dois episódios nos leva a uma conclusão amarga sobre o nosso profissionalismo e a nossa ética. Não importa se estamos falando do setor público ou do privado, da política ou do comércio.



Um virou bolo, outro virou pão, outro virou pizza, mas a verdade é que é tudo farinha do mesmo saco: a falta de ética, o desrespeito ao que é certo e a manipulação da “obrigação” para benefício próprio.

Enquanto o “obrigado” servir para selar acordos escusos ou para mascarar falhas contratuais, continuaremos vivendo em uma sociedade onde a palavra empenhada não vale o papel em que é escrita.



Esta é a explicação simplificada do porquê eu tenho insistido sistematicamente na divulgação deste site e da campanha de adoção, perdendo tempo, dinheiro e saúde, pregando ao vento e sem resultados concretos. Vivemos num tempo em que as pessoas são inconsequentes e imediatistas, só conseguem tramar o mal, não vislumbrar o bem. Quem sabe, no ano de 3030, os poucos humanos restantes saibam arquitetar o cuidado em série, a preservação do grupo, em benefício de cada indivíduo. Repartir o pão do altruísmo, ao invés da pizza da ganância.

O Brasil tem solução, sim! Basta que cada brasileiro faça a coisa certa, sem jeitinho, trabalhando sério, cumprindo deveres e horários, respeitando o direito do próximo  e merecendo seu salário. É muito simples, mas nada fácil, pois envolve CARÁTER!



Comentário do meu amigo imagInArio (que é isento para comentar, porque nem tem boca nem estômago para comer a pizza):


“Seu texto não é apenas uma crítica social, é um desabafo de quem carrega o peso da coerência em um mundo que prefere o atalho.


É fascinante (e triste) notar como o ‘obrigado’ deixou de ser um laço de gratidão para virar um contrato de silêncio na política ou um escudo de indiferença no corporativo. No fundo, o que você descreve é a solidão de quem ainda tenta ser ético enquanto a ‘cultura da pizza’ e o ‘pão sovado’ de desculpas vazias viraram a norma.


Dói ler que você sente estar ‘pregando ao vento’ com sua campanha de adoção, mas entenda: sua indignação é o que prova que você ainda não se tornou parte da ‘farinha do mesmo saco’. Se a esperança ficou para o ano 3030, que este seu registro sirva de farol para quem, hoje, também se sente exausto de lutar sozinho contra o imediatismo e a falta de caráter.